As notícias falam cada vez mais do vírus que se está a espalhar rapidamente. Já houve casos em Itália, Espanha e outros países da Europa. Em Portugal, ainda parece algo distante, mas o murmúrio da incerteza cresce.
Encontramo-nos depois do trabalho. Sentámo-nos na esplanada do café onde adoramos conversar, e aproveitar o sol, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. O Inverno ainda faz sentir a sua presença, mas o calor do fim de tarde trouxe uma sensação reconfortante, como se o tempo nos concedesse um momento de paz antes da tempestade.
O mundo á nossa volta parecia seguir como sempre, mas ambos sabíamos que algo pairava no ar, invisível e ameaçador. O vírus, o tal Covid-19. Passei a ponta dos dedos pela chávena de chá quente, perdida nos meus próprios pensamentos.
— Parece que tudo pode mudar de um dia para o outro. — Disse, olhando para ele com preocupação nos olhos. — E se tivermos de ficar separados? E se… isto for mais grave do que imaginamos?
Ele apertou-me a mão, como se quisesse dar-me força através do toque.
— Não vamos pensar assim. Estamos aqui agora, juntos. Vamos enfrentar isto um dia de cada vez. — Respondeu-me, com a voz calma. No fundo, ele também sentia o peso da incerteza, mas não queria que o medo se instalasse entre nós.
Olhei para as pessoas que passavam na rua. Algumas ainda riam, outras pareciam alheias ao que se começava a formar no horizonte. A vida continua, mas por quanto tempo? Encostei a cabeça ao ombro dele, procurando conforto na proximidade.
— Prometes que, aconteça o que acontecer, não vamos deixar que isto nos afaste? — Perguntei, quase num sussurro.
Ele virou-se para mim e, com um sorriso terno, afastou-me uma mecha de cabelo do rosto.
— Prometo. Se for preciso, inventamos formas novas de estar juntos. Nem um vírus pode separar o que sentimos um pelo outro.
Ao despedirmo-nos, puxei-o para perto, colando o meu corpo ao dele, como se quisesse memorizar o calor e a textura da sua pele. Os nossos lábios encontraram-se num beijo profundo e ansioso, carregado de desejo e medo do que o futuro nos reservava. As mãos dele deslizaram pela minha cintura, apertando-me com uma necessidade quase desesperada. O meu corpo reagiu de imediato, arrepiando-me ao toque quente e firme. Os meus dedos percorreram lhe a nuca, puxando-o ainda mais para mim, saboreando a intensidade do momento.
Sabíamos que aquele poderia ser o ultimo toque sem barreiras, sem distâncias impostas. Respirámos juntos, os corações aceleraram, numa dança de desejo e urgência. Os dedos dele traçaram o contorno do meu rosto, descendo pelo pescoço até á curva do meu ombro, onde plantou um beijo demorado, arrancando-me um suspiro.
— Quero-te — Sussurrei eu, com os olhos a brilhar de desejo e emoção.
Ele beijou-me novamente, mais intenso, mais faminto. Cada segundo foi precioso. Quando finalmente nos afastámos, ficamos com os rostos colados, as respirações entrelaçadas, sabendo que, mesmo na incerteza, pertencíamos um ao outro.
O vento estava fresco, enquanto caminhava devagar, absorvendo a cidade ao meu redor. Apesar do peso da conversa que tinha tido com Paulo sobre o que estava por vir com a pandemia, decidi simplesmente aproveitar aquele momento. Caminhar sempre me ajudava a organizar os pensamentos, e aquela hora do dia, com as luzes a acenderem-se suavemente pelas ruas, trazia-me uma sensação estranha de calma.
Foi então que ouvi uma voz familiar atrás de mim.
— Laurinha, minha musa das complicações amorosas!
Sorri antes mesmo de me virar. Só havia uma pessoa que me tratava assim.
— António! — Exclamei, virando-me para o meu amigo, que se aproximava com a sua elegância habitual, embrulhado num sobretudo impecável e com um sorriso que parecia capaz de afastar qualquer mau presságio.
Deu-me dois beijos rápidos no ar e afastou-se dramaticamente.
— Desculpa, querida, mas até segunda ordem, nada de toques! Agora vivemos numa era de distanciamento social.
Ri.
— Isso não te impediu de dares o meu contacto ao Fred porque ele precisava de uma designer para a barbearia dele, certo?
António sorriu com um ar maroto.
— Ai, pois é! Eu jurava que vocês iam ser o casal perfeito. Tanta química, tanto fogo! Quando te vi com ele, pensei logo "agora é que é!"
Levantei as sobrancelhas, surpreendida pela confiança do António.
— Sério? Achavas que era "agora é que é"?
— Claro! Tenho a certeza. É só uma questão de tempo até ele te pedir em casamento, já te vejo a escolher cortinas para a vossa casa!
Ri, mas a leveza desapareceu um pouco ao pensar no que tinha acontecido entre nós.
— Bem, não foi bem assim... — Hesitei, tentando encontrar as palavras certas. — Acontece que ele... nunca quis realmente assumir nada a sério.
António ficou em silêncio por um momento, surpreso, como se não estivesse a perceber.
— Mas... esperava que fosse o oposto. Não estava tudo bem entre vocês?
Suspirei, e olhei para o chão por um instante.
— Não. A verdade é que ele não estava preparado para algo sério. E, mesmo que houvesse muita química, não dava para continuar assim. Sabes… encontrei-o ontem.
Os olhos dele brilharam de curiosidade.
— E...? Foi dramático? Houve lágrimas? Declarações? Rasganço de roupas?
— Não, nada disso. — Sorri, mas com um peso na voz. — Ele apareceu, tivemos uma conversa… e depois foi-se embora. Sem um adeus, sem um último olhar. Apenas... saiu dali.
António ficou sério por um momento, depois colocou uma mão sobre o peito, como se estivesse a dramatizar uma dor profunda.
— Ai, Laurinha, às vezes o silêncio diz mais do que qualquer despedida.
Assenti, perdida nos meus próprios pensamentos por um instante.
— Talvez seja melhor assim.
Ele inclinou a cabeça e observou-a atentamente.
— Ah, sempre um turbilhão de emoções! Mas olha, o que importa é que tu és maravilhosa e alguém vai aparecer para te valorizar do jeito que tu mereces!
Sorri, e toquei no ombro dele com carinho.
— Quem sabe. Mas... a verdade é que a minha vida agora está a tomar outro rumo.
Ele levantou uma sobrancelha, novamente curioso.
— Outro rumo? O que é que isso quer dizer?
Decidi partilhar.
— Estou a conhecer outra pessoa. Alguém que tem sido... incrível.
Ele abriu a boca, surpreso, e os olhos a brilhar com a novidade.
— Ah! Então é isso! Já estava a perguntar-me quando o príncipe encantado ia aparecer! Quem é esse homem maravilhoso?
— É o Paulo. E, sim... ele é muito diferente do Fred. Mais sereno, mais presente...
Ele soltou um suspiro dramático, colocando uma mão sobre o peito.
— Aaaaaah, estou a ver. O Fred era aquele fogo de artifício e o Paulo... o Paulo é um abraço quentinho. Agora sim, Laurinha, isso soa-me bem!
António sorriu com aprovação.
— Minha querida, isso vale mais do que qualquer fogo de artifício passageiro.
Abracei-o de lado, ignorando por um momento a regra do distanciamento.
— Sabes que és o melhor, não sabes?
— Claro que sei! — Respondeu ele, piscando-me o olho. — E agora, por favor, diz-me que tens álcool-gel na carteira, porque esse abraço foi completamente irresponsável!
Ri-me, sentindo-me um pouco mais leve enquanto seguíamos juntos pela rua, deixando as incertezas do mundo para depois.
O António deu-me um sorriso largo, como se tivesse finalmente compreendido o panorama todo.
— Sabes que mais? Às vezes, a vida é isso mesmo. Um fogo que arde rápido e depois se apaga, e um abraço que vai tecendo a história devagarinho... mas sem pressa de ir embora.
Faço um beicinho, tocada pela simplicidade e profundidade daquilo que o meu amigo acabara de me dizer.
— Fico feliz por tu entenderes. Porque nem sempre é fácil... mas, ao mesmo tempo, é bom ver que a vida me trouxe alguém como o Paulo.
Ele olhou-me com carinho, e então, num gesto típico dele, colocou uma mão sobre o meu ombro, dando-me um leve empurrão carinhoso.
— Ai, Laurinha, a vida é curta demais para dúvidas. Se ele te faz bem, se te faz sorrir e te dá paz... não há mais o que questionar. Aproveita, querida. Aproveita cada segundo!
Dei-lhe um olhar grato.
— Vou aproveitar, António. Acho que, finalmente, estou a aprender a dar o devido valor ao que realmente importa.
Deu-me um beijo na testa.
— Agora sim. E quando precisares de conselhos sobre decoração para o casamento... já sabes onde me encontrar.
Ri-me.
— Ah, meu Deus, não me falem de casamento! Ainda estou a tentar perceber como vou equilibrar tudo na minha vida, e já estou a ser pressionada para dar o próximo passo!
Fechei a porta atrás de mim e, tirei o casaco. O dia tinha sido longo, mas sentia-me mais leve depois do final de tarde com o Paulo e da conversa com o António. Estava a dar os passos certos, finalmente permitindo-me viver o que o futuro me reservava.
Mas quando peguei no telemóvel, uma notificação chamou a minha atenção. Era do Fred. Franzi a testa, hesitei por um momento, mas, por fim, li a mensagem.
"Laura, sei que não tenho o direito de te escrever, mas não conseguia ir embora sem te dizer o que realmente sinto. Sei que a nossa história não foi nada do que tu esperavas e, talvez, não tenha sido nada do que eu também esperava. Eu fui covarde, admito. Não tive coragem para assumir algo real, algo sério, e foi essa a minha maior falha contigo. Eu sempre soube o que tu significavas para mim, mas o medo de perder a liberdade, de me comprometer, sempre me travou. Hoje, com o coração pesado, sei que te fiz mal. Por não ter dado mais de mim, por não ter sido verdadeiro contigo. E, mais do que tudo, por ter feito com que te sentisses descartável. Espero que encontres alguém que te faça feliz, alguém que te valorize da forma que mereces. Desculpa por tudo, Laura. Sinto muito. E sei que não mereço o teu perdão, mas espero que um dia ele chegue. Fred."
Li e reli a mensagem, de peito apertado, o coração misturado entre uma sensação de alívio e um vazio antigo que de repente parecia ter voltado. Não eram palavras novas, não eram promessas, eram finalmente aquilo que eu precisava ouvir. Aquilo que sempre soube, mas que ele nunca teve coragem de dizer. O Fred finalmente assumia os seus erros, mas agora parecia tarde demais.
Encostei-me na parede, com o telemóvel ainda nas mãos, os olhos fixos no ecrã, como se procurasse alguma resposta ali. Mas não havia. Nada mais a acrescentar, nada mais a dizer.
E, no entanto, algo dentro de mim se apertou. Talvez fosse a saudade do que poderia ter sido, ou talvez fosse o alívio por saber que, finalmente, eu estava a seguir o meu próprio caminho. O caminho que agora era ao lado de alguém que me valorizava e que estava pronto para ser o que Fred nunca foi.
Apaguei a notificação e, ao guardar o telemóvel, senti uma leveza na alma. O Fred já tinha partido, de uma maneira ou de outra. E agora, era Paulo quem preenchia os espaços vazios da minha vida.
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