Terça | 18 de Fevereiro de 2020




A manhã estava calma, e eu estava ainda na cama, enrolada nos lençóis. De repente, a campainha tocou. Eu estranhei, mas ainda sonolenta, levantei-me, e com passos lentos fui até á porta.

Quem é tão cedo? — Digo a bocejar. Ao abrir, vi que era ele, com um sorriso largo, e uma caixa improvisada com café, croissants uma pequena flor.

Acorda, Bela Adormecida. Trouxe o pequeno almoço, para te salvar da fome e do tédio. — Disse a brincar.

O que estás aqui a fazer? — Pergunto surpresa e de sorriso no rosto.

A fazer o meu trabalho de namorado perfeito! Não sei se sabias, mas é crime deixar-te sem pequeno almoço.

Não acredito que vieste tão cedo para me trazer… — Olho para a caixa a rir. — Croissants? Café? E… e uma flor?

Claro. Croissants franceses, café com amor e uma flor que literalmente roubei ao teu vizinho. — Disse-me orgulhoso.

Rimo-nos os dois ás gargalhadas.

Meu deus, tu és impossível!

Ele olha para mim.

E tu és linda até de cabelo despenteado.

— Queres um croissant, não é? — Digo corada, mas a não querer perder a brincadeira.

Ele aproxima-se e pega-me nas mãos.

Não, só queria ver o teu sorriso assim, de pertinho.

Sorri e fiquei completamente derretida. Puxou-me para um abraço e um beijo suave.

Não te mereço, sabias? — Disse baixinho.

Mereces sim. Agora vamos comer.

Sentámo-nos á mesa, ele senta-se ao meu lado. Enquanto me observava com carinho e orgulhoso da surpresa.

Hum, isto está perfeito.

— Eu sei. Vou abrir uma padaria. — Disse a brincar.

— Para de ser parvo.

— Só se me prometeres que me vais deixar fazer isto mais vezes.

Segurei-lhe na mão e sorri.

— Prometo. Desde que a flor roubada esteja sempre incluída.

Prometido.

Continuámos a conversar, a rir e a aproveitar o momento juntos.

Ele arrumou a cozinha e eu fui tomar um banho e arranjar-me para o dia de trabalho.

Concentrada no computador á coisa de duas horas, cercada de papeis e de mais uma chávena de café já pela metade. Quando tocou o meu telemóvel. Era ele, com a sua energia típica, pronto para me desviar a atenção do trabalho.

Atendo sem desviar os olhos do ecrã.

Oi, está tudo bem?

— Tudo ótimo! Melhor agora que te ouço. Estás muito ocupada? — Perguntou-me com a voz animada.

Bastante, na verdade. Tenho aquela apresentação de que te falei hoje de manhã. E ela não se faz sozinha, infelizmente.

É mesmo sério. Mas sabes do que precisas?

— De mais café? — Respondi desconfiada.

Não, de uma pausa! Uma pausa perfeita, com sol, mar e eu a fazer-te rir.

— Oh, a sério, que não posso. Tenho imensas coisas para terminar.

Ele interrompeu-me, com um tom divertido.

Pode esperar um bocado! Mas sabes o que não pode? As ondas. Estão perfeitas hoje, Laura. Estou na praia, com a prancha pronta para entrar no mar, mas faltas-me tu para ficar tudo ainda melhor.

— Paulo… — Tento resistir.

Prometo. Vens ver-me surfar um bocado, sentes o sol no rosto, escutas o som do mar e depois levo-te a casa para terminar o trabalho. Se quiseres ainda te ajudo!! O que achas? - Insistiu ele com o seu charme.

— Tu és tentador, sabias?

— E tu mereces respirar um pouco. Vá, larga o computador por uma horinha. Aposto que as ideias vão fluir melhor depois.

Rendi-me e com um sorriso nos lábios disse-lhe.

Tá bem, tá bem! Mas só uma hora.

— Isso! Sabia que não me ias deixar na mão. Estou na mesma praia de sempre á tua espera.

— Dá-me 15 minutos. Mas Paulo…

— Diz?

— Vais ter de surfar muito bem!

— Confia em mim! Vai ser um show só para ti.

— Até já, seu tonto.

Desliguei o computador, peguei na mala e saí de casa com um brilho diferente no olhar. Na praia, ele estava á minha espera, de prancha na mão e de sorriso rasgado no rosto.

Já sentada na areia, debaixo de um céu que ainda guarda um pouco do azul, mas que começava a ser tomado por umas nuvens cinzentas carregadas. Ele, ao longe no mar, equilibrava-se na prancha enquanto dominava uma onda. Observei em silêncio, abraçando os joelhos, imersa nos meus próprios pensamentos.

O som das ondas a quebrar na praia, misturavam-se com o vento que começava a soprar mais forte. Sorria enquanto o observava. Ele parecia tão a vontade no mar, tão livre, quase como se fosse uma extensão das ondas. Admirei a leveza dele, aquela capacidade de estar completamente presente no momento, algo que sempre achei difícil. Enquanto ele deslizava pela superfície da água, perdi-me nos meus pensamentos. “ Porque é que eu não consigo ser mais assim? Mas solta, mais despreocupada?” Lembro-me da pilha de trabalho que deixei em casa, mas, por algum motivo, isso parecia distante agora.

Inspirei profundamente e deixei o cheiro do mar invadir-me os pulmões. O ar salgado parecia acalmar algo dentro de mim, como se estivesse, aos poucos, dissolvendo o peso que carregava no peito. Os meus olhos seguiam-no enquanto ele apanhava outra onda. Ele era, cai, e volta a subir a prancha, rindo sozinho. Sorri. “Ele faz tudo parecer tão simples…”

De repente sinto uma gota fria na bochecha. Olho para cima e percebo as primeiras gotas de chuva, suaves e espaçadas. Não quero sair dali, não quero perder este momento.

As gotas tornam-se mais frequentes e escorrem-me pelos braços. A areia começa a escurecer ao meu redor, marcada pela chuva que agora cai mais firme. Permaneci onde estava, sem sequer tentar procurar um abrigo. Havia algo naquilo tudo - o cheiro da terra molhada, a visão do mar agitado, o contraste das gotas contra o calor da pele - parecia quase mágico.

Olhei para o Paulo, que agora remava de volta para a areia. Ele vê-me, ergue o braço e acena com aquele sorriso que sempre me derrete. A chuva não parecia incomodá-lo; na verdade, parecia ainda mais vivo, como se a tempestade fizesse parte do espetáculo.

Fechei os olhos por um momento, deixando a chuva misturar-se com os meus pensamentos. “Quero mais momentos assim” penso para mim. “ Mais instantes em que o trabalho, as preocupações, que tudo, simplesmente desapareça. Quero viver mais, sentir mais.”

Quando abri os olhos, ele estava já na areia, caminhando na minha direção, com a prancha debaixo do braço e os cabelos molhados. Ele ri, com a respiração ofegante.

Parece que o céu quis entrar na brincadeira.

— E sabes de uma coisa? Acho que foi a melhor parte do dia. — Disse com os olhos brilhantes.

Eu disse-te que uma pausa te ia fazer bem.

Permanecemos ali, mesmo com a chuva a intensificar-se. Aquele momento, simples e imperfeito, tornava-se num daqueles que vou guardar no coração. Uma lembrança de como o inesperado pode trazer a paz que nem eu sabia que precisava.

A chuva continuava a cair ainda com mais intensidade e seguimos os dois para o carro dele. Sento-me no lugar do pendura e observo-o, a tirar o leash da perna e a ajeitar as coisas, e fico completamente encantada. Ele começa a abrir o fecho do fato de surf, o som metálico quase inaudível por causa da chuva. Ele puxa com calma, e revela a pele bronzeada e húmida por baixo. Não consegui desviar o olhar. A chuva transforma cada detalhe em algo quase cinematográfico: o contraste das gotas a escorrerem pelos ombros largos dele, o jeito como os músculos se movem quando ele se inclina para puxar o fato para baixo. Senti o coração acelerar e um sorriso surgir, discreto, mas inevitável. “Como é possível alguém ser tão bonito sem nem se esforçar?”. Ele tira o fato completamente, até aos tornozelos, ficando completamente nu por um breve instante, de costas para mim. Ele ri sozinho, despreocupado, e estende o braço para espremer o fato, sem sequer se preocupar com o que estaria eu a pensar ou a sentir.

Eu, por sua vez, sinto-me tomada por uma mistura de admiração e desejo, mas também uma ternura profunda. Ele estava ali, tão natural, tão confortável consigo mesmo e comigo. Ele mostrava não apenas o corpo, mas a essência de quem é livre, autentico e sem filtros. Ele finalmente virou-se para mim, ainda nu. Os seus olhos encontram os meus e sorri.

Estás a gostar do espetáculo?

— Talvez… É um espetáculo exclusivo?

Ele aproxima-se de mim, ainda com o fato ensopado na mão.

Sempre. Só para ti.

Pegou numa toalha que tinha deixado em cima da mochila e enrolou-se nela com tranquilidade. Baixou-se na minha frente com o rosto perto do meu.

Viste? Eu disse-te que esta pausa ia valer a pena. — Diz-me sussurrando.

Valeu muito mais do que estava a espera. — Respondi olhando-o no outros.

Encostamos a testa um no outro por um instante, e o som da chuva pareceu diminuir.

Estávamos prontos para ir embora da praia, ele dava os últimos toques na prancha em cima do teto do carro. Ambos riamos de algo parvo, claramente confortáveis e felizes. É nesse momento que um carro preto para ao nosso lado e o Fred desce. O meu sorriso desaparece imediatamente.

Num tom casual, mas carregado com algo mais, o Fred falou:

Laura… que coincidência.

— Olá, Fred! — Respondo tensa, mas a tentar manter a calma.

O Paulo desvia o olhar da prancha, sem perceber a tensão no ar.

Olá, tudo bem? — Cumprimenta, apertando-lhe a mão.

O Fred olhou rápido para o Paulo, mas voltou rapidamente a fixar o olhar em mim.

Tudo ótimo. E vocês vieram aproveitar a chuva, foi?

— Vim apanhar umas umas ondas. Uma chuvinha destas não assusta ninguém. — Responde o Paulo distraído com as amarras da prancha.

É, parece que algumas pessoas realmente gostam de desafios, não é, Laura?

Tento manter a postura, mas estou claramente desconfortável com tudo aquilo.

Pois é… Viemos só fazer uma pausa.

— Uma pausa… Interessante. Fazes muitas pausas ultimamente. — Diz de sobrancelha arqueada.

O Paulo olhou para o Fred por um momento, confuso com a conversa. Eu no entanto, senti o peso da indireta. Ele sorrindo, inocente, responde:

É raro! Consegui convence-la a largar o trabalho por um milagre.

O Fred ignorou-o e continuava com o olhar fixo em mim.

Mesmo? Que bom, realmente ás vezes acabamos por fazer coisas que nunca imaginamos, não é?

— Fred, estamos de já de saída. Foi bom ver-te… — Disse firme.

Claro, claro. Não vos quero atrapalhar. Só queria dizer que… — Fez uma pausa teatral continuou. — Foi ótimo enquanto durou.

Engoli em seco, tentando não deixar transparecer a culpa e o desconforto. O Paulo franziu a testa, finalmente a perceber que á algo estranho a acontecer.

Paulo, pareces ser porreiro. Espero que as coisas continuem… tranquilas.

O Paulo ri-se, ainda sem entender as indiretas. O Fred por outro lado, dá-me um ultimo olhar carregado, antes de voltar ao carro. Antes de fechar a porta diz.

Cuida-te Laura! Beijo!

O carro do Fred arranca, o que me deixou aliviada, mas visivelmente abalada. E o Paulo percebe.

Entramos no carro e ele seguiu para me deixar em casa. O carro deslizava pela estrada ainda molhada. Dentro do carro o clima estava denso. Ele mantinha uma mão no volante, a outra apoiada nas mudanças. Os ombros estavam tensos e estava de cara fechada. Percebi que ele estava a remoer tudo o que tinha acabado de acontecer.

Sabes Laura, pensava que conseguia superar a tua historia com o Fred.

Surpresa por ele quebrar o silencio e ir direto ao assunto.

Como assim?

— Claro que eu sabia dos dois. Desde o inicio que foste honesta comigo. E sempre valorizei isso. Mas… hoje, o jeito que ele te olhou… — Fez uma pausa e engoliu em seco. — Não foi o olhar de alguém que superou.

Paulo, aquilo não foi nada. Apareceu por acaso. — Tentei manter a calma.

Virou-se para mim, com os olhos carregados de ciúme e preocupação.

Tens a certeza? Porque para mim, parecia que ele ainda sentia alguma coisa. E sabes o que mais me incomodou? O jeito que ficas-te quando ele apareceu.

— Fiquei surpresa, só isso. Não estava a espera de vê-lo ali. Foi desconfortável, mas… não significou nada.

— Não significou nada? Laura, eu conheço-te. Sei como ficas quando estas nervosa. Ele mexeu contigo, não mexeu?

— Não é nada disso. Foi só o choque do momento. Sabes bem que o Fred faz parte do meu passado, e que não foi assim á tanto tempo. Tu sabes disso. Eu escolhi-te a ti, Paulo.

Ainda inseguro, desviou o olhar para a estrada.

E será que ele sabe disso? É que pareceu-me que ele ainda acha que tem alguma hipótese.

— O que ele acha ou sente não me importa mais. O que me importa é o que nós temos, aqui e agora. Eu não tenho controlo sobre o que ele pensa, mas tu tens de acreditar em mim.

Finalmente olhou-me nos olhos, o olhar mais suave, mas ainda magoado.

Eu acredito em ti. Mas ver aquilo agora… deixou-me inseguro, não te vou mentir. O jeito que ele te olhou, como se ainda tivesse algo entre vocês. Odiei.

— Paulo, olha para mim. Não posso mudar o passado, mas o meu presente e o meu futuro são contigo. Não existe nada entre mim e o Fred, e nunca mais vai haver. És o amor da minha vida, e nada nem ninguém vai mudar isso.

Segurei-lhe na mão enquanto ele conduzia e disse-lhe bem devagar.

Confia em mim.

Acabei de me declarar para ele, e ele nem retribui-o. Mas também não ia insistir no assunto, depois desta pequena discussão. O carro seguiu a estrada enquanto o silencio voltava, mas desta vez mais leve.

Finalmente á porta de minha casa. Ele continuava absorto nos seus pensamentos. Senti que precisava de fazer alguma coisa para quebrar o gelo e aliviar o clima.

Então… Que tal um jantar cá em casa hoje? Só no dois. Faço aquele risoto que adoras.

— Jantar? Hoje?

Inclinei-me mais para ele, segurei-lhe suavemente o braço.

Sim. Só os dois.

Ele desviou o olhar e hesitou.

Laura, eu… eu agradeço o convite. De verdade. Mas… Acho que hoje não é uma boa ideia.

Confusa, tento esconder a decepção.

Não é uma boa ideia? Porquê?

— Eu só… preciso de um bocado de espaço para pensar. Isto que aconteceu agora… mexeu comigo. E eu não quero estragar a noite. — Diz evitando o contato visual.

Insisto, agora mais emocionada.

Não vais estragar nada. Eu só quero estar contigo. Podemos conversar, ou não conversar. Só quero que saibas que estou aqui para nós.

Finalmente olhou para mim.

Eu sei, Laura. E isso significa muito para mim. Mas preciso de um tempo para processar o que estou a sentir. Não é sobre não querer estar contigo. É sobre perceber como lidar com isto.

Engoli em seco, a tentar segurar as lágrimas.

E se eu te der todo o espaço do mundo, mas ainda assim, vieres hoje?

— Não te quero prometer nada agora e depois decepcionar-te. Preciso ser honesto comigo e contigo.

— Tá bem. Eu entendo. Mas quero que saibas que a minha porta está aberta, hoje e sempre.

Tocou-me no rosto levemente.

Obrigado por entenderes. És incrível.

Ele entrou no carro e eu fiquei ali a observa-lo a afastar-se, de coração apertado.

Em casa, não consegui fazer mais nada o resto do dia. Preparei o jantar sozinha, e tentei convencer-me que dar-lhe espaço tinha sido a escolha certa.

Passamos a noite separados, mas conectados pela dúvida e pelo amor.


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